Guia terico do alfabetizador

Miriam Lemle


1 - Introduo

O que me proponho a fazer aqui  colocar, de maneira simples, alguns conhecimentos bsicos sobre a lngua, que considero essenciais para o trabalho nas classes de 
alfabetizao. Trata-se de esclarecimentos de conceitos referentes aos sons da fala,  relao entre os sons da fala e as letras da lngua escrita, s diferentes 
maneiras existentes de pronunciar as palavras, s maneiras como essas variaes de pronncia podem afetar a aprendizagem da lngua escrita e  distino entre lngua 
escrita e lngua falada.
Isso porque sei que, para levar sua tarefa a termo com sucesso, o professor das classes de alfabetizao , de todos, o que enfrenta logo de sada os maiores problemas 
lingsticos, e todos de uma vez. O momento crucial de toda a seqncia da vida escolar  o momento da alfabetizao.
Sabe-se que os professores primrios evitam as classes de alfabetizao. Desse modo, ningum acaba tendo experincia longa em alfabetizao. Tenho certeza de que 
esse temor pode ser substitudo por entusiasmo, se os professores trabalharem preparados e conhecerem os vrios aspectos e seqncias de sua tarefa, dominando os 
instrumentos de trabalho necessrios. Os instrumentos de trabalho de um alfabetizador so abstratos e incluem alguns conhecimentos bsicos sobre sons da fala, letras 
do alfabeto e lngua. Esses instrumentos lhe sero dados nas prximas pginas.
 claro que, alm dos conhecimentos bsicos, o alfabetizador precisa de outros dons para se sair bem. Ele deve ter respeito pelos alunos, confiar na capacidade de 
desenvolvimento dos alunos e ter criatividade, inventividade, iniciativa, combatividade e f em sua capacidade de tornar este mundo melhor.
Esse texto no aborda a questo da falta de condies materiais mnimas da maior parte das escolas primrias do pas, nem a questo da m distribuio da riqueza 
no Brasil. Estas so questes a serem debatidas principalmente nas arenas polticas. Ocorre, porm, que as arenas polticas esto em todas as nossas reas de atuao, 
em todos os nveis.
 medida que se sentirem mais seguros em sua preparao para o trabalho, os professores se sentiro seguros tambm para exigir maior considerao pela profisso 
e mais investimentos para a educao. E, na medida em que aprenderem a respeitar seus educandos, ajudaro a promover um grande nmero de pessoas que at agora so 
atiradas  marginalidade.

2 - As capacidades necessrias para a alfabetizao

Para que uma pessoa possa aprender a ler e a escrever, h alguns saberes que ela precisa atingir e algumas percepes que deve realizar conscientemente. Quais so 
esses saberes e essas percepes, e como ajudar o alfabetizando a atingi-los?  disso que trataremos neste captulo.

O que o alfabetizando precisa saber

A primeira coisa que a criana precisa saber  o que representam aqueles risquinhos pretos em uma pgina branca. Esse conhecimento no  to simples quanto parece 
a quem j o incorporou h muitos anos ao seu saber. Observe que, para entender que os risquinhos pretos no papel so smbolos de sons da fala,  necessrio compreender 
o que  um smbolo.
A idia de smbolo  bastante complicada. Uma coisa  smbolo de outra sem que nenhuma caracterstica sua seja semelhante a qualquer caracterstica da coisa simbolizada. 
Tomemos alguns exemplos de smbolos. Cor vermelha, no sinal de trnsito, simboliza a instruo Pare. A cor verde simboliza a instruo Ande. O dedo polegar voltado 
para cima simboliza a informao Tudo bem. Bandeira branca, na praia, simboliza Mar calmo. Uma bandeira listada de preto e vermelho, no Rio de Janeiro, simboliza 
o Clube Flamengo. Esses exemplos de smbolos de uso comum em nossa vida servem para ilustrar a idia de que a relao entre um smbolo e a coisa que ele simboliza 
 inteiramente arbitrria, ou seja, a razo da forma de um smbolo no est nas caractersticas da coisa simbolizada.
Uma criana que ainda no consiga compreender o que seja uma relao simblica entre dois objetos no conseguir aprender a ler.
Vamos ao segundo problema. As letras, para quem ainda no se alfabetizou, so risquinhos pretos na pgina branca. a aprendiz precisa ser capaz de entender que cada 
um daqueles risquinhos vale como smbolo de um som da fala. Assim sendo, o aprendiz deve poder discriminar as formas das letras. As letras do nosso alfabeto tm 
formas bastante semelhantes, e por isso a capacidade de distingui-Ias exige refinamento na percepo. Tomemos alguns exemplos. A letra p e a letra b diferem apenas 
na direo da haste vertical, colocada abaixo da linha de apoio ou acima dela. a b e o d diferem apenas na posio da barriguinha em relao  haste. O p e o q diferem 
entre si por esse mesmo trao, isto , a posio da barriguinha. Note que os objetos manipulados em nosso dia-a-dia no se transformam, ao mudarem de posio. Uma 
escova de dentes  sempre uma escova de dentes, esteja virada para cima ou para baixo. Um copo de cabea para baixo, ainda  um copo. Mas um b com haste para baixo 
vira p, e um p virado para o outro lado vira q. Do mesmo modo, um n com uma corcova a mais vira m, um e alongado para cima passa a valer I, um a sem o seu cabinho 
passa a ser o e assim por diante. So sutis as diferenas que determinam a distino entre as letras do alfabeto. A criana que no leva em conta conscientemente 
essas percepes visuais finas no aprende a ler.
O terceiro problema para o aprendiz  a conscientizao da percepo auditiva. Se as letras simbolizam sons da fala,  preciso saber ouvir diferenas lingisticamente 
relevantes entre esses sons, de modo que se possa escolher a letra certa para simbolizar cada som. A diferena sonora entre as palavras p e f, por exemplo, est 
apenas na qualidade da consoante inicial: o [p]  uma consoante oclusiva, enquanto o [f]  fricativa. As palavras toca e doca, tia e dia distinguem-se por outra 
caracterstica de suas consoantes iniciais: a consoante [t]  enunciada sem voz, enquanto a consoante [d]  enunciada com voz. As palavras vim e vi tm como nica 
diferena de pronncia o trao de nasalidade da vogal.
Convm lembrar que, quando nos referimos a sons da fala, colocamos o smbolo entre colchetes. Essa  uma conveno de notao utilizada nos estudos de fontica. 
Quando se tratar de letras, o smbolo vir grifado.
 claro que s ser capaz de escrever aquele que tiver a capacidade de perceber as unidades sucessivas de sons da fala utilizadas para enunciar as palavras e de 
distingui-Ias conscientemente umas das outras. Note que a anlise a ser feita pela pessoa  bem sutil: ela deve ter conscincia dos pedacinhos que compem a corrente 
da fala e perceber as diferenas de som pertinentes  diferena de letras.
Recapitulando, essas trs capacidades analisadas so as partes componentes da capacidade de fazer uma ligao simblica entre sons da fala e letras do alfabeto. 
A primeira  a capacidade de compreender a ligao simblica entre letras e sons da fala. A segunda  a capacidade de enxergar as distines entre as letras. A terceira 
 a capacidade de ouvir e ter conscincia dos sons da fala, com suas distines relevantes na lngua.
Mas a escrita contm, ainda, outras idias escondidas.
A corrente de sons que emitimos ao falar  a representao de um sentido, de um contedo mental. Certas seqncias de unidades de som correspondem a unidades de 
sentido, ou conceitos. Por exemplo: a seqncia de sons [pE] representa a unidade de sentido extremidade dos membros inferiores do corpo humano. A seqncia de sons 
[ali] representa a unidade de sentido em localizao longnqua de quem fala. Chamamos de palavras os acasalamentos de som e sentido que utilizamos como tijolos na 
expresso dos nossos pensamentos. Pois bem. Quem vai aprender a escrever deve saber isolar, na corrente da fala, as unidades que so palavras, pois essas unidades 
 que devero ser escritas entre dois espaos brancos.
Temos a, ento, o quarto problema para o alfabetizando: captar o conceito de palavra. Essa unidade palavra  to natural, que sua depreenso quase no constitui 
problema para os aprendizes. Assim, se um principiante na escrita quer escrever a frase
a bola dela  amarela
 pouco provvel que ele erre na segmentao das palavras, escrevendo, por exemplo,
abo lade laeama rela.
O tipo de dificuldade na depreenso de unidades vocabulares que se observa muitas vezes na prtica do ensino so coisas como umavez, nonavio, minhav, ou seja, falta 
de separao onde existe uma fronteira vocabular. O inverso - a colocao de um espao onde no h fronteira -  mais raro. A alocao errada de fronteiras vocabulares 
onde no existem acontece, por exemplo, com palavras femininas que comeam com [a] - minha miga, em vez de minha amiga - ou com palavras masculinas que comeam com 
[u] - o niverso, em vez de o universo.
O importante, na idia da unidade palavra,  que ela  o cerne da relao simblica essencial contida numa mensagem lingstica: a relao entre conceitos e seqncias 
de sons da fala. Temos, portanto, na escrita, duas camadas sobrepostas de relao simblica: uma relao entre a forma da unidade palavra e seu sentido ou conceito 
correspondente, e uma relao entre a seqncia de sons da fala que compem a palavra e a seqncia de letras que transcrevem a palavra.
Esquematizando, temos, por exemplo:
O homem pensa na idia panela, representa essa idia pronunciando a palavra [panela] e representa os sons da palavra pronunciada por meio da seqncia de letras 
p a n e I a. H uma primeira ligao simblica entre o sentido de panela e os sons componentes da palavra falada [panela], e uma segunda ligao simblica entre 
os sons dessa palavra falada e as letras com que a palavra  escrita.
Na prtica escolar da alfabetizao, h uma questo polmica ligada ao fato de que a escrita contm, na verdade, esses dois nveis de representao simblica: a 
representao de conceitos atravs de sons e a representao de sons atravs de letras. A polmica  a seguinte: alguns acham essencial que todas as palavras utilizadas 
nas primeiras etapas da alfabetizao sejam conhecidas pelo alfabetizando. Por exemplo: se na regio onde o alfabetizando mora no existe uva, no deveria ser usada 
a palavra uva nas classes de alfabetizao. Outros acham que pode ser bom aprender palavras novas e brincar com sons desprovidos de sentido, pois isso ajuda o aprendiz 
a compreender a idia de que as letras representam os sons da fala, e no diretamente o sentido.  certo que a escrita representa o sentido, mas indiretamente, intermediada 
pela representao dada pelas letras aos sons da fala. Por enquanto, fica a questo colocada para ser pensada. Depois, voltamos ao assunto.
H outra unidade da estrutura da lngua importantssima na escrita: a unidade sentena, que  representada comeando por letra maiscula e terminando por ponto. 
Se considerarmos que o alfabetizando j precisa ser capaz de identificar, na corrente da fala, as partes que so sentenas, estabeleceremos como quinto problema 
para o alfabetizando o reconhecer sentenas. Mas essa necessidade no precisa ser colocada logo de incio, pois o aprendiz pode aprender a tomar conscincia dessa 
unidade no decorrer de suas primeiras leituras.
Outro saber que precisa ser estabelecido logo no incio do trabalho da alfabetizao  a compreenso da organizao espacial da pgina, em nosso sistema de escrita: 
a idia de que a ordem significativa das letras  da esquerda para a direita na linha, e que a ordem significativa das linhas  de cima para baixo na pgina. Note 
que isso precisa ser ensinado, pois dessa compreenso decorre uma maneira muito particular de efetuar os movimentos dos olhos na leitura. A maneira de olhar uma 
pgina de texto escrito  muito diferente da maneira de olhar uma figura ou uma fotografia.

O cultivo das capacidades que permitem os saberes bsicos para a alfabetizao

Os cinco conhecimentos bsicos para a leitura e escrita que acabamos de identificar podem ser atingidos espontaneamente pelas crianas. Mas podem, tambm, ser estimulados 
a eclodir para que o alfabetizando esteja preparado para o arranque.
As crianas que fazem a pr-escola recebem esse preparo. A familiaridade com papel e lpis, massinhas e brinquedos de encaixe, quebra-cabeas, canes, narrativas, 
jogos ajudam a preparar a criana para os saberes e as tarefas envolvidas na alfabetizao.
Entretanto, os professores de escolas de meios sociais menos privilegiados, se quiserem investir alguma criatividade no trabalho, podem suprir a lacuna da falta 
da pr-escola e podem ajudar suas crianas a ficarem em p de igualdade com as outras.
Vamos procurar algumas idias sobre como se pode estimular o desabrochar de cada uma das cinco capacidades necessrias para a alfabetizao.

Primeiro problema: a idia de smbolo

Trazer para a escola exemplos de smbolos: escudos de times de futebol, bandeiras de clubes e de pases, sinais de trnsito, apitos convencionais de guardas de trnsito, 
gestos convencionais, gestos da lngua de sinais manuais dos surdos-mudos, smbolos religiosos, emblemas, amuletos.

Segundo problema: discriminao das formas das letras

Exerccios de desenho de pequenas formas: crculos, traos, cruzes, quadrados, ngulos, curvas, espirais, composies com vrias unidades de formas diversas. Na 
escola de antigamente, as crianas preenchiam pginas e mais pginas com linhas verticais enfileiradas, linhas inclinadas, circulozinhos, arquinhos e exerccios 
e mais exerccios de traados, antes de comear a alfabetizao. Sem chegar ao exagero, parece-me que h lugar para um certo retorno a essa disciplina, pois hoje 
 muito comum ver pessoas segurando mal o lpis, colocando torto o papel sobre a mesa, sentando-se errado para escrever, comeando o traado das letras de modo arrevesado. 
Cultivar a boa tcnica na escrita  um valor que merece voltar  moda.

Terceiro problema: discriminao dos sons da fala

Criar listas de palavras que comeam com o mesmo som, de palavras que rimam (rimas perfeitas, rimas imperfeitas), de canes que apresentam repeties de slabas. 
Tomar uma mesma melodia e cant-la em diversas slabas: Ia-Ia-laIa... ta-tatata... pum-pum-pumpum... bim-bim-bimbim... Brincar de te1efone-sem-fio. Imitar sotaques.

Quarto problema: conscincia da unidade palavra

Dizer o nome dos objetos que esto  vista. Aprender palavras novas: partes do corpo, termos de parentesco, acidentes geogrficos, profisses, bichos, plantas, frutas, 
sentimentos, atividades, comidas, instrumentos. Localizar a mesma palavra colocada em duas posies diferentes em duas sentenas diferentes. Contar quantas palavras 
h numa expresso:
Macaco feio - quantas palavras tem?
gua fria - quantas palavras tem?
Zico fez gol - quantas palavras tem?

Quinto problema: a organizao da pgina escrita

Brincar de ler. Colocar pequenos textos na pedra, memoriz-los e recit-los de memria, apontando para as palavras correspondentes  medida que a recitao vai prosseguindo. 
Os textos podem ser criados pelos prprios alunos. Com bonitos versinhos, essa atividade pode tornar-se muito agradvel. A escolha de textos familiares na cultura 
local (provrbios, ditados, refres) far a leitura ser sentida como algo normal da vida.
Depois de todo esse trabalho, temos um fregus pronto e desejoso de aprender a ler e a escrever.
Vamos  alfabetizao.

3 A alfabetizao

Quando tratamos das capacidades essenciais para a alfabetizao, colocamos como primeiro problema o de compreender que existe uma relao de simbolizao entre as 
letras e os sons da fala. Todo sistema alfabtico de escrita tem essa caracterstica essencial: os segmentos grficos representam segmentos de som.
Quem j tentou ensinar algum a ler e a escrever certamente teve a experincia de testemunhar um salto repentino no progresso do aprendiz. H um dado momento em 
que parece ocorrer um verdadeiro estalo, aps o que a pessoa faz rpidos progressos. Que estalo ser esse?
A suposio mais plausvel  que o estalo ocorre quando o aprendiz capta a idia de que cada letra  smbolo de um som e cada som  simbolizado por uma letra. Uma 
vez agarrada a idia, o problema reduz-se a lembrar que figura de letra corresponde a que tipo de som da fala.
Pobre alfabetizando! Sua euforia logo dever se abrandar, porque as coisas que acontecem entre sons e letras so um pouco mais complicadas do que essa perfeio 
de casamento monogmico entre uma letra e um som. H poligamia, h poliandria, h rivalidades, h abandonos. A revelao inicial deve ser seguida de alguns ajeitamentos, 
at que o alfabetizando conhea a verdade, menos lmpida do que parecia inicialmente, do casamento um pouco defeituoso entre sons e letras.

As complicadas relaes entre sons e letras

O casamento entre sons e letras nem sempre  monogmico. O modelo ideal do sistema alfabtico  o de que cada letra corresponda a um som e cada som a uma letra, 
mas essa relao ideal s se realiza em poucos casos.
Na verdade, temos em portugus pouqussimos casos de correspondncia biunvoca entre sons da fala e letras do alfabeto. Chama-se correspondncia biunvoca aquela 
em que um elemento de um conjunto corresponde a apenas um elemento de outro conjunto, ou seja,  de um para um a correspondncia entre os elementos, em ambas as 
direes.
Temos, no Quadro 1, os casos de correspondncia biunvoca entre letras e fonemas no dialeto carioca. Note que, nesse quadro, um elemento do conjunto de letras corresponde 
a um elemento do conjunto de fonemas, e um elemento do conjunto de fonemas corresponde a um elemento do conjunto de letras.
QUADRO 1 - Correspondncias biunvocas entre fonemas e letras
P  /p/
B  /b/
T  /t/
D  /d/
F  /f/
V  /v/
A  /a/

Chamamos de fonema, em lingstica, uma unidade de som caracterizada por um dado feixe de traos distintivos. Traos distintivos so caractersticas de som que so 
relevantes na diferenciao entre unidades do sistema. Por conveno, esse tipo de unidade  representado entre barras inclinadas (/ /).
O segundo tipo de relao existente entre os sons da fala e as letras do alfabeto  o que foi chamado anteriormente de poligamia e de poliandria. Chama-se poligamia 
o casamento de um homem com vrias mulheres, e poliandria o casamento de uma mulher com vrios homens. As relaes entre sons e letras vistas a seguir so uma forma 
de poligamia e de poliandria muito especial.  como se o homem polgamo tivesse apenas uma mulher em cada cidade que freqenta, e a mulher polindrica tivesse um 
s homem em cada lugar freqentado por ela.
Vamos comear com exemplos de sons casados com letras diferentes segundo a sua posio.
Tomemos, por exemplo, o som da vogal [i]. Se a vogal [i] est numa posio de slaba acentuada, ela ser transcrita, em nossa conveno ortogrfica, pela letra i. 
Isso ocorre em palavras como vida, saci e rio. Se a vogal [i] est numa slaba tona final de palavra, ela corresponder  letra e, em nossa ortografia.  o caso 
de vale, corre, morte etc. Com a vogal [u], a situao no dialeto carioca  simtrica  da vogal [i]. Em posio de slaba tnica, a letra que transcreve [u]  u 
(lua, tudo) e em posio final de palavra, se a slaba  tona, a vogal  transcrita na ortografia pela letra o (mato, pego).
Partindo, agora, da letra para o som, verificamos como as letras se casam com sons diferentes, dependendo de onde esto. Tomemos a letra I como primeiro exemplo. 
Essa letra deve ser pronunciada com o som de uma consoante lateral, se se encontra diante de uma vogal, como em lata e bola. Mas, em posio final de palavra ou 
diante de uma consoante, a letra I corresponde, no dialeto carioca, ao som da vogal [u], como em sal, anzol, jornal, alto, almoo, cala e caldo.
Outro exemplo de correspondncia no-biunvoca do som para a letra  o das vogais acentuadas no dialeto carioca. O que ocorre  uma ditongao de todas as vogais 
tnicas localizadas na ltima slaba de uma palavra, se uma consoante [s] vem depois. Por exemplo: a pronncia de rapaz  [rapais], a de ps  [peis], a de giz  
[ziys], a de cs  [kois], a de luz  [luis]. No dialeto paulista, essa ditongao das vogais  mais generalizada do que no carioca: os paulistas ditongam tambm 
em ambientes no-finais. Ouvem-se pronncias como [meizmo] para mesmo, [paista] para pasta, [roisto] para rosto. Na lngua escrita, essas transies em [y] no so 
representadas: diz-se [peys] e escreve-se ps, mas diz-se [papeys] e escreve-se papis.
 claro que essas situaes de poligamia e de poliandria trazem problemas de escrita para os alfabetizandos.  que, se eles acabaram de ter aquele maravilhoso estalo, 
aquela revelao de que letras simbolizam sons, logicamente pensam que h fidelidade conjugal entre letras e sons: cada letra com seu som, cada som com sua letra. 
Assim  que as coisas deviam ser, no  mesmo? O alfabetizando  coerente ao supor que o som [i] corresponde sempre  letra i, e que o som [u] corresponde sempre 
 letra u. Por isso, retomando os mesmos exemplos anteriores, o que os principiantes escrevem  vali para vale, morti para morte, matu para mato, pegu para pego, 
peis para ps. Indo da letra para o som, eles supem que a letra I transcreve sempre e somente o som [1]. Por isso, por que escrever com I final as palavras sal 
e anzol, se  com [u] final que elas so pronunciadas? Com essa lgica, os principiantes da escrita escrevem sau, anzou, auto.
 muito importante que o alfabetizador tenha bem claras em sua mente essas particularidades nas variedades de correspondncias entre sons e letras. Fatalmente, o 
alfabetizando com capacidade de observao e de crtica far perguntas do tipo:
- Professor, se eu falo [pis] por que  errado escrever peis?
- Eu falo [matu] e no [mato]. Devia ser matu a escrita certa.
- [pau] e [sau] se falam igualzinho. Por que se escrevem pau e sal?
A resposta dada pela maior parte dos professores  a de que "a gente  que fala errado, porque o certo  falar [ps], [mato], [sal]". Mas  uma pssima resposta.
O professor deve estar apto a explicar que a posio precisa ser levada em conta para a correspondncia entre sons e letras. Assim, no fim das palavras  a letra 
o que transcreve o som [u], e  a letra e que transcreve o som [i]. Em relao ao fim de slaba, ocorreu na regio onde vivemos uma mudana de pronncia do I, e 
por isso pronunciamos como [u] essa partezinha da palavra que nossos avs pronunciavam como [1].  por isso que dizemos [sau] e no [sal]. Mas, preste ateno, ns 
falamos [saleiro]. Eis o I de volta. O [u] de [sau]  um [1] que mudou para [u]. Em nosso dialeto, pronunciamos nossos /1/ como [u], no fim das slabas.
Essa  a maneira como tais perguntas devem ser respondidas. Responder dizendo que as pessoas falam errado  um equvoco lingstico, um desrespeito humano e um erro 
poltico. Um equvoco lingstico, pois ignora o fato de que as unidades de som so afetadas pelo ambiente em que ocorrem, ou seja, sons vizinhos afetam-se uns aos 
outros. Um desrespeito humano, pois humilha e desvaloriza a pessoa que recebe a qualificao de que fala errado. Um erro poltico, pois ao se rebaixar a auto-estima 
lingstica de uma pessoa ou de uma comunidade contribui para amedront-la. O professor que usa a sada fcil de explicar as dificuldades de escrita como sendo ocasionadas 
por defeitos da fala contribui para a marginalidade de seus alunos. Mais adiante, retomaremos essa questo.
Nos dois quadros a seguir, podem ser vistas as mais importantes correspondncias mltiplas entre letras e sons (Quadro 2) e entre sons e letras (Quadro 3).  importante 
ter claro na mente que tais correspondncias so determinadas pela posio, ou seja, so regulares, e essa regularidade pode ser comentada pelo professor.  possvel 
aprend-las por meio de uma regra, de modo que podem ser sistematicamente ensinadas por um professor bem preparado para exercer sua profisso.

QUADRO 2 - Uma letra representando diferentes

sons, segundo a posio

Letra
Fone (sons)
Posio
Exemplos
s
[s]
Incio de palavra
Sala

[z]
Intervoclico
casa, duas rvores

[s]
Diante de
resto, duas casas


consoante surda



ou em final



de palavra


[i]
Diante de
rasgo, duas gotas


consoante sonora

m
[m]
Antes de vogal
mala, leme

(nasalidade
Depois de vogal
campo, sombra

da vogal
diante de p e b


precedente)


n
[n]
Antes de vogal
nada,banana

(nasalidade
Depois de vogal
ganso, tango,

da vogal

Conto

precedente)


I
[I]
Antes de vogal
bola, lua

lu]
Depois de vogal
calma, sal

[e] ou [e]
No-final
dedo, pedra

[i]
Final de palavra
padre, morte

[o] ou [:>]
No-final
bolo, cova

lu]
Final de palavra
bolo, amigo


QUADRO 3 - Um som representado por diferentes letras, segundo a posio



Fone (som)
Letra
Posio
Exemplos
[k]
e
Diante de a, o, U
casa, come, bicudo

qu
Diante de e, i
pequeno, esquina
[g]
G
Diante de a, o, u
gato, gota, agudo

gu
Diante de e, i
paguei, guitarra
[i]
I
Posio acentuada
pino

E
Posio tona em
padre, morte


final de palavra

lu]
U
Posio acentuada
lua

O
Posio tona em
falo, amigo


final de palavra

[R]
rr
Intervoclico
carro
[r forte]
R
Outras posies
rua, carta, honra
[aw]
o
Posio acentuada
porto, cantaro

am
Posio tona
cantaram
[ku]
qu
Diante de a, o
aqurio, quota

q
Diante de e, i
cinqenta, eqino

cu
Outras
frescura, pirarucu
[gu]
g
Diante de e, i
agenta, sagi

gu
Outras
gua, agudo
Esses quadros no esgotam a informao sobre relaes som-letra e letra-som previsveis pela posio nem so verdadeiros para todos os falares do Brasil. Em cada 
comunidade lingstica os professores devero compor seus prprios quadros correspondentes aos quadros dados aqui, registrando neles a distribuio dos sons conforme 
se d no dialeto falado pela sua clientela e por eles mesmos.
Por exemplo: para os falantes do dialeto gacho que enunciam um [1] velarizado em posio final de, slaba, a segunda linha do correspondente fontico da letra [1] 
no Quadro 2 dever ser alterada. O mesmo dever ser feito para as contrapartes fonticas das letras e e o em posio final de palavra, que soam escandidas para ouvidos 
no-sulinos!
Outro exemplo de alterao do Quadro 2 refere-se  incluso dos fatos lingsticos da variedade de portugus na qual houve a perda da nasalidade de vogais tonas 
finais de palavra. As pronncias de palavras como homem, viagem, Cristvo, falam so, respectivamente, home, vage, Cristvo, falo. O Quadro 2 referente a esses 
dialetos dever receber uma linha a mais no espao destinado  contra parte fnica da letra m, e o elemento ocupante dessa linha ser um zero fontico.
O terceiro tipo de relao possvel entre sons e letras  o mais difcil: a concorrncia, em que duas letras esto aptas a representar o mesmo som, no mesmo lugar, 
e no em lugares diferentes, como nos casos j vistos.  o caso da letra s e da letra z, que so usadas, ora uma, ora outra, para representar o mesmo som de [z] 
entre duas vogais. Temos mesa, mas tambm reza. Temos azar, mas tambm casar. Do mesmo tipo  a rivalidade entre c- e ss, usados entre vogais para representar aquilo 
que  sempre o mesmo som [s]: posseiro e roceiro, assento e acento, passo e lao, caado e cassado. Da mesma maneira, o ch e o x competem na representao da fricativa 
palatal surda (taxa, racha) e o g e o j rivalizam no privilgio de representar a fricativa palatal sonora (jeito, gente, sujeira, bagageiro ).
Com base nos fatos do dialeto carioca,  fornecida no Quadro 4 uma viso dos principais casos da situao de concorrncia pela qual mais de uma letra, na mesma posio, 
pode servir para representar o mesmo som.
Esse caso  o mais difcil para a aprendizagem da lngua escrita. Aqui, no h qualquer princpio fnico que possa guiar quem escreve na opo entre as letras concorrentes. 
Nesses casos, a nica maneira de descobrir a letra que representa dado som numa palavra na lngua escrita  recorrer ao dicionrio. E decorar, aprendendo a grafia 
das palavras, uma a uma, guardando-as na memria. Nada mais lgico pode ser feito, em termos da representao dos fatos fonticos da lngua. Depois, veremos que 
grande parte dessas opes que so arbitrrias como representao de fatos fonticos perdem essa arbitrariedade quando a estrutura morfolgica das palavras  levada 
em conta.
QUADRO 4 - Letras que representam fones idnticos em contextos idnticos



Fone
Contexto
Letras
Exemplos
[z]
Intervoclico
s
mesa


z
certeza


X
exemplo
[s]
Intervoclico
ss 
russo

diante de a, o, u

ruo


Sc
cresa

Intervoclico
Ss
posseiro, assento

diante de e, i
C
roceiro, acento


Sc
asceta

Diante de a, o, u,
S
balsa

precedido por consoante

ala

Diante de e, i, precedido por consoante
S
persegue


C
percebe
[S]
Diante de vogal
ch
chuva, racha


x
xcara, taxa

Diante de consoante
s
espera, testa


x
expectativa, texto

Fim de palavra e diante de consoante de pausa
S
Funis, ms, Tas


z
atriz, vez, Beatriz




[z]
Incio ou meio de Palavra e diante
de e, i
j
jeito, sujeira


G
gente, bagageiro




[u]
Fim de slaba
U
cu/chapu


I
mel, papel
zero
Incio de palavra
zero
ora, ovo


h
hora, homem

Como sistematizar as complicadas relaes entre sons e letras

Antes de entrar no assunto, um aviso: no abordaremos questes de metodologia de ensino, pois  rea dos pedagogos. Discutiremos, aqui, o percurso e o enfoque do 
contedo a ser colocado nas primeiras etapas do ensino da lngua escrita.
No item anterior, fizemos uma subdiviso dos tipos de relao existentes em nossa lngua entre sons da fala e letras do alfabeto. Encontramos trs tipos de relao:
. relao de um para um: cada letra com seu som, cada som com uma letra;
. relaes de um para mais de um, determinadas a partir da posio: cada letra com um som numa dada posio, cada som com uma letra numa dada posio;
. relaes de concorrncia: mais de uma letra para o mesmo som na mesma posio.
H uma gradao entre esses trs tipos de relao. A motivao fontica da relao simblica  perfeita no primeiro caso e decai gradativamente. No segundo caso, 
a motivao fontica vem combinada com a considerao da posio e, no terceiro, a motivao fontica da opo entre as letras est perdida. Essa gradao determina 
uma gradao de facilidade na aprendizagem das letras.

A primeira etapa da alfabetizao: a teoria do casamento monogmico entre sons e letras

Como foi visto quando discutimos as capacidades necessrias para a alfabetizao, podemos afirmar que o primeiro grande progresso na aprendizagem d-se quando o 
alfabetizando atina com a idia de que h, na escrita, representao de sons por letras. Faz sentido supor que a idia construda por ele sobre essa relao  a 
mais simples possvel: a relao monogmica, ou biunvoca, para usar linguagem tcnica. Ento, por que no comear o ensino seguindo as etapas naturais do aprendiz?
Considerando que o primeiro passo do alfabetizando em sua compreenso do sistema da escrita  o entendimento da situao ideal e perfeita de que cada letra tem seu 
som e cada som tem sua letra, vamos deix-lo explorar essa hiptese por um curto espao de tempo.
Vamos fornecer-lhe material de exercitao que no entre em contradio com a hiptese construda em sua cabea, que  a da relao de um-para-um entre sons e letras, 
ou hiptese da monogamia.
No Quadro 1, temos as letras mais virtuosas do portugus do Brasil: as consoantes p, b, t, d,f, v e a vogal a. Fiis esposas de um marido s, elas representam, onde 
quer que apaream, sempre a mesma unidade fonmica. Essa virtude faz com que essas letras meream o privilgio de serem as primeiras a aparecer no incio da alfabetizao. 
Com elas, seriam formadas as primeiras palavras e as primeiras frases dos exerccios, seriam inventados versinhos e musiquinhas. Por que no brincar com slabas 
desprovidas de sentido? Criar ritmos alternando as consoantes, tomar melodias conhecidas e cantarol-las, lendo simultaneamente sucesses de slabas formadas com 
essas consoantes virtuosas, e inventar joguinhos de palavras cruzadas usando s essas letras so algumas sugestes de atividades que podem ser criadas.
Num segundo momento dessa primeira etapa, deixaramos entrar letras menos virtuosas, mas faramos de conta que elas so virtuosas para manter o alfabetizando protegido 
na hiptese da monogamia por mais tempo. Permitiramos, ento, a entrada das letras do Quadro 2, mas apenas em seus contextos mais gerais e em seus valores fonticos 
mais tpicos. Por exemplo: a letra I entraria nos contextos de incio de slaba, com seu som de consoante lateral, mas no nos contextos de fim de slaba, onde ela 
soa como [u]. Assim, admitiramos lua, lava e vala, mas evitaramos enfrentar sol, mel e sal. A letra s apareceria posicionada em incio e em fim de palavra ou de 
slaba, mas teria seu aparecimento evitado em posio intervoclica, porque a ela soa igual ao z, perturbando a hiptese da monogamia. O m e o n entrariam s em 
ocorrncias iniciais de slaba, ou seja, nos casos em que sua articulao  plena. As vogais e e o somente apareceriam quando acentuadas, e no em situaes em que 
soam como [i] e [u].
 claro que no podemos nos agarrar com rigidez ao intuito de manter o alfabetizando resguardado por algum tempo das complicaes da escrita. As palavras vo jorrar 
de todos os lados, as crianas vo traz-las, e no seria sensato exagerar o peneiramento dos dados. Se as letras indesejadas forarem sua entrada, ser preciso 
adiantar a explicao de que essas letras podem, s vezes, ter outros sons, quando colocadas em outras posies.
Cabe ao professor decidir por quanto tempo convm trabalhar sob a redoma da hiptese da monogamia.  impossvel ater-se a ela por muito tempo, sob pena de permitir 
que o aprendiz se fixe com excessivo apego a um conceito ilusrio da rede de relaes entre sons e letras.

A segunda etapa da alfabetizao: a teoria da poligamia com restries de posio

A segunda etapa da aprendizagem consiste na rejeio da hiptese da monogamia.  preciso ajudar o aprendiz a observar que h palavras em que o som da letra I no 
 [1] e sim [u], que h posio em que o som da letra o  de [u] e o som da letra e  de [i], que a letra r corresponde a um som forte em incio de palavra e a um 
som brando quando colocada entre duas vogais. Em suma, os fatos resumidos nos Quadros 2 e 3 do dialeto do alfabetizando sero propostos  sua ateno.
A exposio do alfabetizando aos dados como os dos Quadros 2 e 3 pode ser conduzida de maneira sistemtica pelo professor.
Uma tima maneira de fazer isso  propor atividades de pesquisa. O professor pode arranjar jornais velhos, revistas velhas, invlucros de produtos e qualquer material 
impresso, alm de uma folha de papel grande, tesoura e cola, e propor o seguinte:
Vamos estudar a letra I. Que sons ela tem? Em lua e em sala, ela tem um som. Em sol e em papel, o som  outro. Vamos recortar todas as palavras em que aparece a 
letra I; vamos colar as palavras em que o som da letra  igual ao som que ela tem em lua, em uma metade da folha; vamos colar as palavras cujo I tem o mesmo som 
que aparece em sol, na outra metade da folha. O mesmo ser feito com a letra c que tem som igual ao da palavra cinco e com a letra c que tem som igual ao da palavra 
casa. Depois, faremos a mesma coisa com o e que soa [i] e com o e que soa [e]. E o mesmo com o o que soa [o] e com o o que soa [u]. Convm alternar: agora, partiremos 
do som e determinaremos a letra. Que letras servem para representar, o som de [g]? A letra g, se estiver na frente de a, o, u, e o dgrafo gu, se estiver na frente 
de e, i. Vamos colar exemplos em nosso cartaz. E o som [o], como  representado na escrita? Ele pode ser o, como em balo e em comilo, e am, como em/alam e em 
subiram.
Trabalhando dessa maneira, o alfabetizador ajudar o alfabetizando a perceber que a hiptese da monogamia  invivel. Com os novos dados, ele vai conceber uma nova 
hiptese sobre a relao entre sons e letras na lngua portuguesa, do tipo:
Para cada som numa dada posio, h uma dada letra; a cada letra numa dada posio, corresponde um dado som.
Para nosso uso, denominemos essa hiptese de hiptese da poligamia condicionada pela posio.
A passagem da primeira hiptese (monogamia) para a segunda hiptese (poligamia condicionada pela posio)  um passo de importncia crucial na construo do conhecimento 
do alfabetizando a respeito do nosso sistema de escrita. Quando o alfabetizando no d esse passo e aferra-se  primeira hiptese, ele comete falhas tpicas de leitura 
e de escrita. Vamos analisar e compreender a lgica dessas falhas.
O erro de leitura caracterstico do alfabetizando que encalhou na idia da monogamia entre sons e letras  a pronncia artificial das palavras, com a escanso de 
letra. Assim, todo o  lido com o som de [o], mesmo os que esto no fim das palavras; todo e  lido sempre como [e] e nunca como [i], que  o caso dos finais tonos; 
o artigo o  pronunciado com o som de [o]; a preposio de  pronunciada com o som [de]; m e n pr-consonantais recebem articulao travada.
O triste  que, na maioria das vezes, o aluno  secundado nisso pelos professores, que acreditam ingenuamente ser essa pronncia fictcia, de alguma maneira, a certa 
da lngua. Alis, eles at elaboram essa criao artificiosa de uma modalidade de lngua que s existe dentro das salas de aula de alfabetizao. Uma lngua na qual 
a conjuno adversativa mas ganha uma pronncia abstrusa, anasalada, que tem o discutvel mrito de torn-la diversa do advrbio mais; na qual a forma sou recebe 
a pronncia, letra por letra, [sou]; uma pronncia, enfim, que faz da sala de aula um universo lingstico foneticamente distinto do mundo l fora. Essa maneira 
especial de pronunciar as palavras pode ser interpretada como um artifcio didtico usado pelos professores para preservar a validade da teoria monogmica do sistema 
de escrita, mas o melhor a fazer  ajudar o aluno a se desfazer dessa convico.
Os erros de escrita caractersticos dos alfabetizandos que ainda se encontram na etapa monogmica da teoria do vnculo entre sons e letras consistem, principalmente, 
na transcrio de todos os sons pelas suas letras correspondentes em seu valor fontico mais tpico. Por exemplo: a palavra pato  escrita patu, porque o aluno escreve 
como pronuncia, e em sua mente a transcrio do som [u] s pode ser feita pela letra u. Pela mesma lgica, ele escreve devi em vez de deve, treis em vez de trs, 
tonbo em vez de tombo, dero em vez de deram. A lgica desses erros  sempre a mesma: falta a aprendizagem das restries que a posio na palavra impe  distribuio 
das letras e dos sons. O erro patu denota o no ter se dado conta de que o som [u], quando em posio final de palavra, sem acento,  transcrito pela letra o. O 
erro devi revela que a pessoa no sabe que um som de [i] tono em fim de palavra  representado ortograficamente pela letra e. O erro treis revela a falta de aprendizagem 
do fato de que toda vogal acentuada na frente de um [s] final  pronunciada, automaticamente, acrescida de um [i] fontico nem sempre representado na escrita. O 
erro tonbo demonstra que a pessoa ainda no aprendeu a distribuio antes de p e b usa-se a letra m e antes das outras consoantes usa-se n. Finalmente, o erro dero 
resulta do no saber que o ditongo nasal, quando no acentuado, em verbos,  transcrito por am e no por o.
A transio entre a primeira e a segunda etapa da alfabetizao est completa quando o alfabetizando no comete mais erros que demonstram o desconhecimento das restries 
de ocorrncia das letras conforme a posio na palavra.
Vencida essa etapa, o alfabetizando no comete mais erros de ortografia? Nada disso! A parte mais rdua  a aprendizagem das relaes arbitrrias entre letras e 
sons.

A terceira etapa: as partes arbitrrias do sistema

Esta terceira etapa dura toda a vida. Ningum escapa de um momento de insegurana sobre a ortografia correta de uma palavra rara.
Quando mais de uma letra pode, na mesma posio, representar o mesmo som, a opo pela letra correta em uma palavra , em termos puramente fonolgicos, inteiramente 
arbitrria. Pelas regras de distribuio de sons e de letras em portugus, rosa, que se escreve com s, poderia igualmente ser aceita com z; do mesmo modo, exame 
tem x, mas poderia igualmente ser escrita com s, ou com z e hora tem h, mas ora no, apesar da identidade fontica.
No Quadro 4, oferecemos um resumo desse tipo de situao, em que duas ou mais letras rivalizam na simbolizao de um mesmo som na mesma posio.
O nosso alfabetizando j passou pela decepo de ver que no funciona a teoria do casamento monogmico entre sons e letras, e j se conformou com a necessidade de 
reformul-la para a teoria da poligamia com restries de posio. Entretanto,  obrigado a manter aberta a questo e a organizar suas idias de maneira a atender, 
tambm, os casos idiossincrticos que o Quadro 4 resume.
Nesses casos, ele dever resignar-se a memorizar a escolha certa da letra, individualmente para cada palavra.
No fim dessa tortuosa aventura intelectual, o alfabetizando ter construdo uma teoria sobre a correspondncia entre sons e letras em portugus, do tipo:
Para cada som numa dada posio, h uma dada letra; a cada letra numa dada posio, corresponde um dado som. Em certos ambientes, certos sons podem ser representados 
por mais de uma letra.
J que demos um rtulo s duas verses iniciais da teoria, inventemos um para essa verso final: teoria da poligamia com restrio de posio e casos de concorrncia. 
Mas, para evitar complicao, convencionemos chamar de terceira verso essa verso de teoria da correspondncia entre sons e letras.
Que pode fazer o alfabetizador para ajudar o alfabetizando a integrar em seu conhecimento ortogrfico os fatos resumidos no Quadro 4?
Primeiro, ele pode fornecer aos perguntadores as respostas corretas s perguntas que lhe so feitas. Assim, se algum aluno perguntar por que sino comea com s e 
cinco comea com c, o professor dever responder que h casos, na nossa lngua, em que duas letras diferentes fazem o mesmo trabalho de representar o mesmo som. 
Seria conveniente dar um pouquinho de informao histrica. Por exemplo: Isso  explicado pela histria da nossa lngua. Antigamente, nossa lngua era bem diferente 
da que ns falamos hoje. Ela era falada numa vasta regio do globo a partir do territrio que compreende hoje a Itlia e chamava-se latim. Em latim, os sons do c 
de cinco e do s de sino no eram iguais, e por isso essas palavras eram escritas com letras diferentes. Com a passagem de muitas geraes de falantes, as pessoas 
alteraram a pronncia das palavras, e o som da palavra cinco, que se articulava com [k], foi mudando. O [k] mudou para [ts] e o [ts] para [ts], que acabou mudando 
para um som de [s], igual ao de sino. Entretanto, como a lngua escrita guarda um pouco da memria do passado, ns ainda retemos em nossa escrita a lembrana dessas 
duas pronncias que antigamente eram diferentes. Ento, essas irregularidades da nossa lngua escrita so explicadas pela memria da histria. Nossa lngua carrega, 
na escrita, a tradio do passado que ela tem.
Explicaes desse tipo consolaro um pouco os alunos pelo esforo a ser investido na memorizao da escrita das palavras. Se bem dadas, tais explicaes podero, 
at, despertar certo brio pela historicidade da lngua e da comunidade que a usa.
Em segundo lugar, o alfabetizador pode conduzir o alfabetizando, organizadamente, a saber exatamente quais so os contextos em que duas ou mais letras concorrem 
na representao do mesmo som. Isso tambm pode ser feito pelo mtodo da pesquisa. Um papel grande, cola, tesoura e muitos materiais impressos. Vamos repartir, segundo 
suas diversas representaes ortogrficas, todas as palavras pronunciadas com o som [s] no meio de duas vogais, como em coisa. Algumas vezes, esse som  escrito 
com s, outras vezes com z e outras, ainda, com x. Resultado: um cartaz tripartido, uma coluna com coisa, casa, rosa, asilo, resumo, usar etc., uma coluna com azul, 
aza, cozinha, cozido, rezando, azeite etc., uma coluna com exame, exato, exemplo, exrcito, exerccio etc.
Outro procedimento que se pode adotar para ajudar a fixao desse tipo de conhecimento  depreender palavras de letras de msicas ou de poesias conhecidas, procurando 
saber com que letras essa palavra  representada na escrita. Tomemos, por exemplo, A banda, de Chico Buarque:
Eu estava  toa na vida
O meu amor me chamou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

Que palavra comea com o som [s]? Passar! Escreve-se com  ou com ss? Com ss! Quais palavras so faladas com um som de [z] no meio de duas vogais? Coisas! Escreve-se 
com s ou com z? Com s! Que palavra comea com o som de [che]? Chamou! Escreve-se com x ou ch? Com ch!
E, finalmente, a mais importante das recomendaes: o professor no deve dar muita importncia a erros de escrita dessa espcie. Gradativamente, com a prtica da 
leitura e da escrita, tais erros diminuiro. A preocupao com a ortografia no deve crescer a ponto de inibir a expresso escrita da criana.

Variao dialetal e arbitrariedades nas relaes entre sons e letras

H algo importantssimo que o alfabetizador deve saber, para no cometer erros crassos de pensamento e de atitude em seu trabalho.  o entendimento de que as partes 
do sistema da conveno ortogrfica que tm relao arbitrria com os sons da fala variam de dialeto a dialeto.
Assim, por exemplo, se voc faz parte da comunidade lingstica que mudou o [1] em fim de slaba para [u], ter que tomar uma deciso fonologicamente arbitrria, 
no que diz respeito  escrita de uma palavra com u ou com I nessa posio. Entretanto, se a sua comunidade no participou dessa mudana, e ainda distingue as duas 
unidades de som, a aprendizagem da ortografia de palavras desse tipo no trar problemas. Do mesmo modo, se voc pronuncia pra e feira sem fazer diferena entre 
o som correspondente ao e da primeira' palavra e o som que corresponde ao ei da segunda, ser preciso decorar que pra, cera e bandeja se escrevem com e, enquanto 
feira, beira e beija se escrevem com ei. Mas, se o seu dialeto ainda mantm a diferena entre as duas unidades de som, basta registrar sua pronncia ao escrever.
Algumas das mudanas lingsticas que resultam na fuso de dois sons anteriormente distintos no so sentidas pelos falantes como marcas de um status socialmente 
inferior. Os dois exemplos anteriores mostram isso, pois no Rio de Janeiro ningum acha "feio" a pronncia de sal com [u] ou de feira ou beija sem o [i].
Outras mudanas, resultantes do mesmo tipo de processo lingstico, estigmatizam socialmente os que as fazem ouvir em sua fala: a mudana do [1] em [r] ([pranta]), 
a perda de outros i ([salaro]), a iotizao dos [] e [l] ([syo], [oyo]) so tidas como marcas de inferioridade social.
Faz parte da competncia profissional de um professor a atitude respeitosa para com a maneira de falar da comunidade em que exerce seu trabalho.  muito importante 
para o alfabetizador ter a percepo de que as partes do sistema ortogrfico que tm relao arbitrria com os sons da fala variam de dialeto a dialeto.
A maneira de trabalhar, no ensino, essas pronncias tidas como defeituosas  exatamente a mesma que propusemos para estudar as palavras nas quais a relao entre 
sons e letras  arbitrria. Vamos fazer um cartaz de estudo do som r depois de uma consoante? Temos [r] que se escreve com I e [r] que se escreve com r! Clima, aclamao, 
atleta, aflito para um lado do cartaz, pois so [r] que escrevemos como l. Prova, cruz, frango, atrocidade, crime para o outro lado do cartaz, pois so [r] que escrevemos 
como r.
Em nossa fala, h zeros que exigem alguma letra na escrita! [operaro] ganha um i: operrio. Vamos pesquisar mais: salrio, armrio, comrcio.
Se essa terceira etapa da aprendizagem for bem trabalhada, o alfabetizando saber quais letras transcrevem quais sons em quais posies e quais letras concorrem 
em quais posies para representar quais sons, alm de conhecer a escrita convencional de uma boa quantidade de palavras.

A quarta etapa: um pouco de morfologia

Nesse ponto, pode-se fazer o alfabetizando dar mais um passo: perceber as regularidades ligadas  morfologia das palavras. A palavra beleza, por exemplo,  escrita 
com z, que est numa posio de concorrncia com s. Assim, pelo som, podiase escrever belesa. Entretanto, observe como esse pedacinho eza -  comum na lngua: belo 
- beleza, mole - moleza, certo - certeza, pobre - pobreza, rico - riqueza, estranho estranheza, grande - grandeza. As palavras belo, mole, certo, pobre, rico, estranho 
e grande contm o sentido de qualidade, tendo a classificao gramatical de adjetivo. As palavras beleza, moleza, certeza, pobreza, riqueza, estranheza e grandeza 
correspondem ao nome dessas qualidades, e a classe gramatical delas  substantivo.
Observe como  obtido o substantivo pela juno do pedacinho -eza ao adjetivo. Esses pedacinhos, que servem para derivar uma palavra a partir de uma outra, chamam-se 
sufixos. Podemos economizar muito a nossa memria se prestarmos ateno aos sufixos que entram na formao das palavras. Assim, saber que o sufixo -eza, que forma 
substantivos a partir de adjetivos,  escrito com z e no com s permite acertar automaticamente a escrita da palavra, ao se reconhecer o sufixo.
Vale a pena dedicar bastante tempo ao estudo dos sufixos, pois desse modo o alfabetizando poder reconhec-los nas palavras novas com que for se defrontando, e acertar 
na escrita. So tantos! Vejam. Lavagem, bobagem, engrenagem, passagem, dosagem. Tudo o que acaba em -agem se escreve com g, e no com}. E ateno, ateno, para 
quem pronuncia essas palavras sem vogal nasal no fim, assim, viage, passage, bobage: essas palavras, na escrita, exigem um m final.
Portugus  com -s, mas estupidez  com -ez. A explicao  que portugus, assim como ingls, francs, noruegus, finlands, escocs, irlands etc.  adjetivo derivado 
de nome de pas. Da a terminao -s. J estupidez, assim como maciez, sisudez, polidez, robustez, sensatez, solidez, liquidez etc.  substantivo derivado de adjetivo. 
Da a terminao -ez.
Agora, -ice. Maluquice.  com c, e no com ss. Burrice, esquisitice, tolice, sonsice. -Ice forma nomes a partir de adjetivos. Curioso, parece que se especializa 
em nomes de qualidades ruins.
H, tambm, prefixos cuja identificao ajuda a fixar a grafia correta.  o caso, por exemplo, do prefixo des-, que aparece em desfazer, desmanchar e descolar; do 
prefixo dis-, que aparece em distorcer, distenso e discutir; do prefixo ex-, de expulsar e excomungar; do prefixo extra-, de extraordinrio etc.
No Quadro 5, temos um resumo dos sufixos e dos prefixos mais importantes para a ortografia, pois so aqueles cujos sons poderiam, sem erro de posicionamento das 
letras, ser escritos com outras letras.
QUADRO 5 - Identificao de afixos visando  fixao de generalizaes ortogrficas
Afixo
Alternativa ortogrfica fonologicamente
plausvel
Exemplos
-eza
esa
grandeza, beleza, moleza
-s
ez
portugus, francs
-ez
s
estupidez, gravidez
-iz
is
atriz, bissetriz, aprendiz
-o
sso
inflao, formao, votao
-ai
au
sensacional, maternal
-ice
isse
burrice, tolice
-agem
ajem
bobagem, passagem, lavagem
-izar
isar
realizar, concretizar, socializar
-na
nsa
confiana, poupana, presena
-ncia
nsia
importncia, carncia, freqncia
des-
dis
desfazer, desmentir
dis-
des
disperso, discusso, distorcer
extra-
estra
extraordinrio, extraditar


Para conduzir o alfabetizando no caminho do conhecimento dessas unidades menores da lngua, no  preciso conden-lo ao tdio de decorar listas de sufixos e de prefixos. 
Mais uma vez, pode-se estimular a pesquisa. Por exemplo: procurar afixos em textos de leitura, em textos produzidos por eles mesmos, em letras de msicas etc.  
importante que o professor tenha alguma informao sistemtica sobre a estrutura morfolgica das palavras em portugus e, tambm, algum conhecimento sobre a histria 
da lngua.
Vamos recapitular o que foi discutido neste captulo. Analisamos os tipos de relaes existentes na lngua portuguesa entre os sons da fala e as letras do alfabeto. 
Descobrimos que h trs tipos de relaes. A primeira  a relao ideal, denominada monogmica, em que uma letra corresponde a um som e um som  representado por 
uma s letra. A segunda  denominada poligamia e poliandria com restries de posio, um tipo de situao em que uma mesma letra representa ora um tipo de som da 
fala, ora outro, dependendo do contexto no qual est colocada. A mesma situao  repetida no sentido do som para a letra: o mesmo som, num lugar, corresponde a 
uma letra; em outro lugar, corresponde a outra letra. A terceira relao, denominada situao de concorrncia,  aquela em que um som, na mesma posio, pode ser 
ortograficamente representado por mais de uma letra.
Como essas trs relaes guardam entre si uma ordem lgica, que vai do mais motivado foneticamente para o menos motivado foneticamente, supusemos que o andamento 
lgico de compreenso do sistema pelo alfabetizando segue os passos da lgica do sistema. O aprendiz constri seu conhecimento do sistema de escrita percorrendo 
um caminho que passa por trs etapas. Na primeira etapa, ele acredita na hiptese da monogamia entre sons e letras e faz progressos rpidos ao atingi-Ia. Na segunda 
etapa, ele se apercebe das particularidades de distribuio e substitui a hiptese da monogamia pela hiptese da poligamia condicionada por posio. Na terceira 
etapa, ele verifica que h posies de concorrncia entre letras e reformula sua segunda hiptese, chegando, ento,  terceira teoria, denominada teoria da poligamia 
com restrio de posio e casos de concorrncia. Finalmente, o alfabetizando pode minorar o problema das escolhas arbitrrias entre letras concorrentes, se for 
conduzido sabiamente na identificao de certos afixos.

A avaliao das falhas de escrita

Da classificao feita a partir dos trs diferentes tipos de acoplamento entre sons e letras em nosso sistema de escrita, derivamos um percurso que o aprendiz das 
letras deve fazer at se assenhorear completamente do sistema.
Por meio desse enfoque, podemos estabelecer objetivamente um critrio prtico para avaliar os erros de escrita e de leitura cometidos pelo alfabetizando. Alm disso, 
podemos utilizar a avaliao dos erros para diagnosticar com bastante preciso em que etapa do processo de aquisio o aluno se encontra.

Falhas de primeira ordem
Se o aprendiz ainda est na fase de dominar as capacidades prvias da alfabetizao, as falhas cometidas so leitura lenta, com soletrao de cada slaba, e escrita 
com falhas na correspondncia linear entre as seqncias dos sons e as seqncias das letras: repeties de letras (ppai em vez de pai, meeu em vez de meu), omisses 
de letras (trs em vez de trs, pota em vez de porta), trocas na ordem das letras (parto em vez de prato, sadia em vez de sada), falhas decorrentes do conhecimento 
ainda inseguro do formato de cada letra (rano em vez de ramo, laqis em lugar de lpis, eua em lugar de lua), falhas decorrentes da incapacidade de classificar algum 
trao distintivo do som (sabo em vez de sapo, gado em lugar de gato, pita em lugar de fita).

Falhas de segunda ordem
Se o aprendiz est retido na etapa monogmica da sua teoria da correspondncia entre sons e letras, ignora as particularidades na distribuio das letras. Na leitura, 
pronuncia cada letra escandindo-a no seu valor central. Sua escrita  como uma transcrio fontica da fala. As falhas tpicas so como as dos exemplos seguintes:
matu em vez de mato;
bodi em vez de bode;
tenpo em vez de tempo;
azma em vez de asma;
genrro em vez de genro;
eles falo em vez de eles falam.

Falhas de terceira ordem
Se o aprendiz j escalou o terceiro patamar do saber ortogrfico e incorporou a terceira verso da teoria da correspondncia entre sons e letras, suas falhas se 
limitaro s trocas entre letras concorrentes:
. aado em vez de assado;
. trese em vez de treze;
. acim em vez de assim;
. jigante em vez de gigante;
. xinelo em vez de chinelo;
. chingou em vez de xingou;
. puresa em vez de pureza;
. sau em vez de sal;
. craro em vez de claro;
. operaro em vez de operrio.

Na leitura em voz alta, o aprendiz de terceira etapa j  capaz de pronunciar as palavras de maneira natural, reduzindo devidamente as vogais finais.
Esse critrio de ponderao das falhas ortogrficas e de leitura pode ser muito til na prtica do ensino, servindo para diagnosticar em que estgio da elaborao 
da teoria da correspondncia entre sons e letras o aprendiz' se encontra. Em decorrncia disso, pode ser transformado em critrios fundamentados de avaliao dos 
alunos e dos mestres.
O aprendiz que ainda comete falhas de segunda ordem no completou sua alfabetizao. Ser considerado alfabetizado aquele em cuja escrita s restarem falhas de terceira 
ordem, que sero superadas gradativamente, com a prtica da leitura e da escrita. Uma expresso espontnea, criativa e cheia de falhas de terceira ordem  prefervel 
a uma escrita correta e atada.
 de fundamental importncia que o professor saiba diagnosticar e avaliar as falhas de escrita cometidas por seus alunos, aproveitando-as como evidncia do patamar 
de saber j atingido e do ainda por atingir. O professor s deve cobrar do aluno tarefas compatveis com a etapa de saber atingida. Assim, se num ditado fica evidente 
que certos alunos ainda esto cometendo muitas falhas de primeira ordem, o professor no pode propor tarefas de escrita que requerem leitura e compreenso de um 
texto. At mesmo tarefas que exigem a leitura das frases do enunciado da questo so prematuras, em casos de alunos que apresentam erros de primeira ordem.
Tarefas como responder perguntas, fornecer sinnimos ou antnimos, escrever formas do plural ou do feminino e redigir por conta prpria so prematuras para um aluno 
que est percorrendo o primeiro patamar do saber da escrita. Para essas tarefas, o estgio adequado  o do segundo patamar. A introduo de tarefas prematuras s 
servir para retardar o progresso do aluno.

A metodologia - consideraes crticas

Para encerrar o captulo, perguntemo-nos que relao existe entre as etapas de aquisio j esboadas e os mtodos de alfabetizao. H, basicamente, dois mtodos 
possveis oficialmente reconhecidos para conduzir o trabalho da alfabetizao: mostrar primeiro as letras e ensinar suas correspondncias com sons e depois ensinar 
a compor com elas as slabas e as palavras; ou mostrar primeiro palavras - ou frases - e ensinar a identificar nelas as unidades componentes - as letras - e os sons 
que lhes correspondem.
O primeiro caminho recebe o nome de, mtodo sinttico, pois a tarefa consiste em sintetizar seqncias, dados os tomos componentes. O antigo mtodo de recitao 
do b-a-b encaixa-se nesse tipo. O segundo caminho recebe o nome de mtodo analtico, j que se parte das seqncias completas, sendo a tarefa analis-las e identificar 
os tomos. Note que os dois mtodos so caminhos diferentes para conduzir o alfabetizando a construir a primeira etapa do conhecimento do sistema ortogrfico: a 
etapa da hiptese da monogamia. Parece que a didtica da alfabetizao, entre ns, no chegou a encarar sistematicamente o caminho posterior a essa etapa, ou seja, 
as duas etapas seguintes, indispensveis para que o percurso cognitivo de uma alfabetizao racionalmente ancorada esteja completo.
H quem creia que a anlise do percurso cognitivo do alfabetizando seja bem outra: ele apreenderia globalmente, por simples reteno, caso por caso, das relaes 
entre imagens grficas, imagens fnicas e sentidos, em bloco. De fato, essa forma de aprendizagem  possvel. Animais ensinados apreendem assim. Esse tipo de aprendizagem 
no caracteriza um verdadeiro saber, pois no  aplicvel a casos novos nunca vistos antes. Quem de fato aprendeu a ler e a escrever  capaz de ler coisas que nunca 
leu e de escrever coisas que nunca escreveu.  desse tipo de saber racional, ilimitadamente criativo, que estamos tratando.
H observaes que parecem favorecer a hiptese de que a aprendizagem da leitura d-se pela captao de um bloco no direcional e indiviso de relao entre letras, 
sons e sentidos. Primeiro, porque certas crianas mostram-se capazes de ler por adivinhao, baseadas em inferncias semnticas, pedaos de palavras e de frases 
que ainda no so capazes de decodificar; segundo, porque os adultos lem por saltos, captando a informao em blocos, inferindo muito e soletrando pouco. No entanto, 
o que podemos concluir dessas observaes  que nossa mente vasculha vrias fontes de informao para resolver determinado problema.  certo que nosso saber do mundo 
pode, em alguns casos, minimizar as exigncias de leitura-decodificao, quase dispensando-a, e permitir uma leitura-quase-adivinhao. No entanto, parece fora de 
dvida que toda a informao imprevisvel contida num texto deva ser lida mediante a decodificao pela ordem letras-sons-sentido.
Assim, creio que o fato de existir a leitura-por-adivinhao no nos dispensa de ajudar o alfabetizando a ser racionalmente bem-sucedido na leitura-por-decodificao.

4. A variao na lngua falada e a unidade na lngua escrita

As lnguas mudam

A lngua denominada portuguesa no  falada do mesmo modo por todas as pessoas que a utilizam. Ela  falada em Portugal, no Brasil, em Angola, em Moambique, em 
Goa, em Macau, em Cabo Verde etc. So aproximadamente 220 milhes de pessoas, o que a torna a 6 lngua do mundo em nmero de falantes. O modo de falar de uma pessoa 
permite saber se ela  ou no nascida e criada na mesma regio onde nascemos. Podemos, at, saber a que classe social uma pessoa pertence, ouvindo-a falar.
Por que no falamos todos do mesmo modo?  que todas as lnguas mudam numa sucesso de passos, pois cada nova gerao de uma comunidade introduz alguma mudana na 
lngua. Cada mudana isolada pode passar despercebida, mas depois de muitas geraes, uma pessoa que ressuscitasse em seu lugar de nascimento no entenderia mais 
a lngua dos seus descendentes.
Algumas pessoas, quando percebem mudanas na lngua, reagem como se tivessem sofrido alguma ofensa moral. Essas pessoas crem que a nova lngua  inferior  anterior, 
no que diz respeito  beleza e  possibilidade de veicular idias, conhecimentos, pensamentos, cultura. Alguns, at, lutam em favor da conservao da lngua. Isso 
acontece h muitos sculos.
Nossa.lngua, por exemplo, vem do latim, que j era falado nas vastides do Imprio Romano desde dez sculos antes de Cristo. Essa lngua  muito bem conhecida, 
porque ficou dela uma imensa e linda literatura. A variedade de lngua utilizada nessa literatura se chama latim clssico. O latim falado pelo povo era o chamado 
latim vulgar, bem diferente do latim clssico. Foi dessa segunda variedade de latim que se originou a lngua portuguesa, fruto da colonizao da pennsula ibrica 
pelos conquistadores romanos, falantes do latim vulgar. Essa conquista deu-se no ano de 197 antes de Cristo. Os primeiros documentos considerados como sendo j da 
lngua portuguesa datam do sculo XII da nossa era. Essas informaes servem para localizar o exemplo de resistncia  mudana lingstica que ser mostrado a seguir.
H um documento importantssimo que permite saber um pouco sobre o latim vulgar:  o Appendix Probi, escrito em Roma no sculo III da nossa era. Nesse documento, 
o gramtico Probus faz uma longa lista de palavras do latim vulgar da poca, indicando a pronncia que ele considerava certa e comparando-a com a pronncia que ele 
julgava errada. O equivalente do Appendix Probi, hoje, seria mais ou menos assim:
. no  mul,  mulher;
. no  arrai,  arraial;
. no  aio,  olho;
. no  falamo,  falamos;
. no  os santo,  os santos;
. no  comeno,  comendo;
. no  armoo,  almoo;
. no  crube,  clube;
. no  dento,  dentro;
. no  pobrema,  problema.

O Appendix Probi contm, por exemplo, recomendaes desse tipo (a traduo das palavras em portugus est entre parnteses):
. speculum non speclum        (espelho)
. columna non colomna                (coluna)
. coquens non cocens                (cozendo)
. calida non calda                (quente)
. vinea non vinia                (vinha)
. alveus non albeus                (alvo)
. oculus non oclus                (olho)
. ansa non asa                        ( asa)
. auris non oricla                (orelha)
. persica non pessica                (pssego)
. nuros non nura                        (nora)
. socrus non socra                (sogra)
. rivus non rius                        (rio)
. nunquam non nunqua                (nunca)
. vobiscum non voscum         (vosco, de convosco)
. februarius non febrarius         (fevereiro)
. passer non passar                (pssaro)
Mas as recomendaes de Probus no foram atendidas pelos falantes do latim vulgar. Basta observar as tradues dos exemplos, para perceber que a lngua portuguesa 
 a continuao da forma do latim que Probus rejeitava: o latim do vulgo, da plebe, do povo iletrado.
O exemplo do Appendix Probi foi utilizado para mostrar que o menosprezo de um grupo de falantes pelo modo de falar de outro grupo de falantes  algo que se repete 
continuamente em todos os tempos, em todas as partes, em todas as sociedades.
A razo disso  que a lngua falada por uma pessoa tornase marca de sua identidade. Damos valor ao modo como nossa comunidade se expressa, temos apego  forma de 
lngua falada pelos iguais que nos cercam. Assim, como pode algum ter a falta de sensibilidade de no valorizar, como ns, esse modo de falar, e ter a ousadia de 
modific-lo? Ento, essa pessoa no d valor ao nosso modo de ser, aos nossos valores? Se fazemos questo de defender nossos valores de vida, temos que garantir 
a preservao da nossa lngua.
 mais ou menos essa a lgica daqueles que muito se afligem com algo que lhes parece ser a decadncia da lngua.

O mecanismo de mudana na forma das palavras

Vamos estudar o mecanismo bsico pelo qual acontecem as mudanas nas lnguas. Vamos tomar um exemplo que vimos no Appendix Probi: "rivus non rius". O exemplo prova 
que naquela poca a palavra rio era pronunciada rivus por uns e rius por outros.  claro que a pronncia do estgio mais antigo da lngua era com [v], e que houve 
a queda do [v] na fala de uma parte da comunidade.
Como se explica essa queda? Qualquer som pode ser pronunciado com maior ou menor fora na articulao. Suponhamos que uma parte da comunidade tenha adotado, por 
qualquer razo, numa dada poca, um estilo de articulao mais frouxa dos sons. Essa frouxido articulatria, levada ao extremo, acaba resultando num [v] praticamente 
imperceptvel. Os falantes da mesma gerao limitavam-se a variar sua articulao do [v], ora produzindoo com frico branda, ora quase sem frico. At esse momento, 
temos uma mudana na qualidade da pronncia da lngua que ainda no  uma mudana na estrutura da lngua.
A mudana na lngua acontece quando uma nova gerao de falantes entra em jogo. A nova gerao precisa aprender a lngua que a sua gente fala, sendo esse aprendizado 
um fazer ativo, um trabalho da mente. Assim, que situao encontra a gerao dos filhos dessas pessoas que afrouxaram a pronncia dos seus [v] intervoclicos? Como 
tais [v] esto sendo quase omitidos no uso corrente da lngua, a nova gerao simplesmente no ouve [v] nenhum. Para eles, a palavra  [rius], e no [rivus] relaxadamente 
pronunciada [rius].
Agora, a lngua mudou na forma, pois o fenmeno da perda dos [v] entre vogais ocorre em todas as palavras em que h um [v] entre duas vogais, sendo a segunda tona. 
Vejam os exemplos a seguir (o sinal> significa, no estudo das mudanas da lngua, passou a, ou virou):
aestivum > estio
fugitivum > fugidio
sanativum > sadio
bovem > boe > boi
Para poder refletir sobre os problemas do ensino lngua  importantssimo entender esse mecanismo da mudana lingstica. Por isso, vamos olhar mais alguns exemplos 
de como as palavras da lngua latina mudaram de forma com o passar das geraes, at tomarem a que usamos hoje:
nebula > nvoa
caballu > cavalo
faba > fava
trabe > trave
nubine > nuvem
debet > deve
habere > haver
A mudana ocorrida nos exemplos acima  b > v. Vamos esmiuar o processo pelo qual essa mudana se deu, como fizemos com aquele em que [v] passou a zero. Um grupo 
de falantes da comunidade de nossos antepassados lingsticos afrouxou de tal maneira a ocluso dos lbios, ao articular seus [b] entre vogais, que essa ocluso, 
s vezes, chegava a ser frico, ou seja, os lbios deixavam um pequeno vo aberto pelo qual o ar passava com rudo. Provavelmente esses falantes oscilavam na pronncia 
dessas palavras, ora produzindo a oclusiva, ora a fricativa. A mais comum, entretanto, era a pronncia fricativa.
Se algum perguntasse a esses falantes sobre a pronncia da palavra [caballu] ([caballu] ou [cavallu]), provavelmente receberia a resposta [caballu]. Os falantes 
alfabetizados escreviam, sem titubear, caballu com b, mesmo que o som realmente produzido na maior parte das enunciaes da palavra fosse a consoante fricativa, 
e no a oclusiva. Ou seja, no dicionrio mental desse cidado a representao ideal dessa palavra continha a consoante oclusiva. A realizao fricativa da consoante 
era, para ele, mera flutuao irrelevante de produo.
At esse ponto, houve mudana na realizao fontica da lngua, mas no houve mudana na anlise da lngua. Entretanto, o filho desse cidado ouve palavras pronunciadas 
com fricativas intervoclicas. Diante de tais dados, ele construir uma representao mental da forma dessas palavras, na qual as consoantes intervoclicas sero 
fricativas, e no oc1usivas, pois o seu lxico mental  elaborado a partir de dados fonticos que lhe so oferecidos. Ento, se o que lhe oferecem  percepo so 
as palavras [cavallu], [fava], [trave] etc.,  assim que ele as registrar em se lxico mental. Desse modo, o lxico mental do pai  um e o do filho  outro.
Portanto, na transio de uma gerao para a outra a lngua mudou, porque as pessoas da gerao mais nova tm representao mental de uma parte do lxico diferente 
da representao da gerao mais velha. Onde os mais velhos tinham palavras com consoantes oclusivas vozeadas intervoclicas, os mais novos tm palavras com consoantes 
fricativas vozeadas intervoclicas. Note que, considerando as representaes mentais das palavras, a mudana ocorrida  abrupta, e no gradual. De uma gerao para 
outra, a interpretao dada aos mesmos dados difere. Os velhos analisam os dados da sua lngua como contendo consoantes oclusivas, os jovens analisam os mesmos dados 
como contendo consoantes fricativas.
Como esses jovens escrevero a palavra cavalo? Obviamente, com v. E o que acontece, se a ortografia oficial da lngua preconiza que cavalo se escreve com b, e no 
com v? Conflito. Esses jovens, ento, sero obrigados a escrever uma lngua com formas diferentes daquelas que falam. Alm disso, tero que saber que a palavra pronunciada 
[boi] deve ser escrita bove, a palavra pronunciada [rium] deve ser escrita rivum, a palavra pronunciada [fava] deve ser escritafaba, a palavra pronunciada [haver] 
deve ser escrita haber.
Vamos dar um salto de dezessete sculos. Poderia aparecer no Brasil um gramtico Probus Tupiniquinus que fizesse um Appendix Probi Brasiliensis, listando exemplos 
de diferenas entre a representao lexical construda no saber lingstico de determinados grupos de falantes e a representao lexical preconizada pela ortografia 
oficial. No quadro a seguir, apresentamos algumas das principais mudanas lingsticas evidenciadas no portugus do Brasil, contrastando a representao lexical 
que est atrs do saber lingstico de muitos brasileiros com a representao das mesmas palavras na conveno ortogrfica oficial.
Mudana
lingstica
Representao
lexical na mente
dos falantes
Representao lexical na conveno ortogrfica
L > R / depois de
consoante
crube
clube

afrio
aflio

prano
plano
R > 0 / final de
palavra
fal
falar

am
amor

trabaiad
trabalhador
L > I / entre duas
vogais
mui
mulher

trabaiad
trabalhador

mi
melhor
L > R / final de
slaba
armoo
almoo

arma
alma

fartava
faltava
I > 0 tono diante de vogal
salaro
salrio

operaro
operrio

rodoviara
rodoviria
I > 0 / final de
palavra
arrai
arraial

pesso
pessoal

anz
anzol
d > 0 / depois de
nasal
falano
falando

trabaiano
trabalhando

snico
sndico
R > 0 / depois de
consoante
dento
dentro

cadasto
cadastro

pobrema
problema
s > 0 / final de
palavra
vinte minuto
vinte minutos

aquelas moa
aquelas moas

sabemo
sabemos

tivemo
tivemos
0 > i / depois de consoante final de slaba
adivogado
advogado

adimito
admito

atimosfera
atmosfera
L > U / final de
slaba
sau
sal

auto
alto
L > I / diante de
ditongo iniciado
por [i]
Getulho
Getlio

lho
leo




Acabamos de ver alguns exemplos de mudanas lingsticas. Algumas so da etapa que vai do latim clssico ao latim vulgar; outras, da etapa que vai de um tempo a 
de uma lngua denominada portugus a um tempo b de outra lngua tambm denominada portugus (a e b podem at coexistir em espaos sociais diversos). Podemos, agora, 
dar mais um passo na compreenso do mecanismo da mudana.
Nosso primeiro passo foi perceber que uma mudana lingstica ocorre em duas etapas. Na primeira, h uma fase de mera flutuao fontica, decorrente da variao 
no desempenho articulatrio de um grupo de falantes. Essa variao de desempenho tende a concentrar as realizaes dos sons mutantes em uma das extremidades do espectro 
das realizaes possveis. Num segundo momento, com a entrada em cena de uma nova gerao de falantes a adquirirem a lngua, os dados do desempenho fontico dos 
mutantes fonticos so reinterpretados e reanalisados pelos recm-chegados, que os organizam em seu saber lingstico de uma maneira diferente da utilizada por seus 
predecessores.

Os efeitos das mudanas na estrutura da lngua

A pergunta que nos cabe responder agora : Como a realocao dos dados fonticos feita pela nova gerao afeta a estrutura da lngua?
Retomemos s mudanas que analisamos dentro do prprio latim. Vimos, por exemplos como caballu > cavallu e habere > haver, que a unidade de som (fonema) /b/ se cindiu: 
parte de seus representantes (o /b/ inicial e o /b/ final de slaba) mantiveram-se inalterados, mas parte deles, os que ocorriam entre duas vogais, aproximaram-se 
excessivamente das propriedades articulatrias tpicas do fonema /v/ e acabaram fundindo-se com os representantes do /v/. Ento, podemos dizer que houve uma ciso 
do /b/ e uma fuso com o /v/ de uma parte de seus representantes. O /v/, por sua vez, adquiriu novos representantes, com a entrada em seu territrio dos antigos 
/b/ que com ele vieram fundir-se. Mas o /v/, por sua vez, perdeu aquela parte de seus representantes intervoclicos, que, devido ao excessivo afrouxamento de sua 
articulao, acabaram por se fundir com o zero. Se acrescentarmos  informao j vista a de que o /p/ entre duas vogais passou a /b/ (apertu > aberto, capillu > 
cabelo, lupum> lobo, sapit> sabe), podemos ter uma viso bem curiosa do que aconteceu: um verdadeiro rodzio de palavras, um jogo de Escravos de J. Dessa forma, 
cada fonema forneceu palavras portadoras de seus representantes a outro e recebeu palavras novas de um terceiro fonema.

Esquematizando da mesma forma uma parte do rodzio que est acontecendo no portugus de nossos dias, temos o seguinte:

Nesse rodzio de formas, vrias coisas podem acontecer com a estrutura da lngua. Pode acontecer que apenas as palavras individualmente mudem em suas representaes 
fonmicas, mas o conjunto de traos distintivos pelos quais os fonemas se distinguem uns dos outros se mantm. Pode acontecer que um determinado trao distintivo 
deixa de ser distintivo. No italiano de Roma, por exemplo, h distino entre consoantes longas e consoantes breves. As palavras troppo, gatto, sacco, mamma e sonno 
tm consoantes longas, e as palavras capo, lato, antico, fama e buono tm consoantes breves. Mas no norte da Itlia, como na cidade de Veneza, o dialeto local no 
tem esse contraste. Todas as consoantes so breves.
Pode acontecer que um dado fonema deixe de existir por completo. H variedades de portugus do Brasil em que no existe mais a lateral palatal, que em todos os contextos 
passou a /i/: folha> foia.
Pode acontecer que mude a chamada fonottica da lngua, ou seja, as estruturas de slabas possveis e a distribuio dos fonemas pelas posies na slaba. Por exemplo: 
com a queda dos /r/ finais (corr), dos /l/ finais (arrai), dos /s/ finais (dos Santo) e das nasais finais (passage), a estruturao silbica terminada por consoante, 
chamada de slaba travada, quase inexiste nessa variedade do portugus.
Pode acontecer que uma categoria gramatical da lngua venha a perecer, se sua manifestao formal for uma entidade fnica que v a zero. A morte de alguns casos 
em latim  exemplo disso. Nessa lngua, era obrigatrio marcar com um m final (chamado acusativo) todas as palavras que tinham a funo de objeto direto de um verbo. 
Por exemplo: Amo Lcia, devamos dizer Amo Luciam. A queda dos 1m! finais, uma mudana fonolgica, levou de roldo as marcas de acusativo, afetando, portanto, de 
maneira muito importante a gramtica da lngua.
Esse punhado de exemplos permite-nos perceber como falta base para afirmar que uma lngua  melhor antes de alguma mudana do que depois dela.

A relao entre lngua falada e lngua escrita

Estamos, agora, em condies de discutir a relao existente entre a lngua falada e a lngua escrita.
Se vivssemos num mundo mais simples do que o nosso mundo real, as coisas da lngua tambm seriam mais simples.Mas o nosso mundo de civilizao ocidental  complexo, 
e por isso as coisas da lngua tambm se complicam bastante.
A complexidade da civilizao ocidental est relacionada com a complicao da relao entre lngua falada e lngua escrita, na medida em que interessa muito, em 
nossa civilizao, que a lngua escrita tenha um alcance de comunicao bem amplo. Isso porque acima das pequenas comunidades locais h a comunidade nacional, e 
acima da comunidade nacional h a comunidade internacional. Assim,  interessante haver uma forma de comunicao escrita que sirva no s para os intercmbios entre 
os companheiros de comunidade, mas tambm entre os companheiros de nao, entre os companheiros de todo o mundo de fala portuguesa e, transcendendo o tempo, entre 
pessoas que vivem em pocas diferentes.
Entretanto, o interesse em possuir uma lngua escrita com um duradouro e largo poder de comunicao, acima das fronteiras do tempo, das fronteiras locais e das fronteiras 
nacionais,  um interesse que est inevitavelmente em conflito com o interesse de que a lngua escrita a ser aprendida pelos alfabetizandos seja uma lngua prxima 
da sua fala espontnea e, portanto, fcil de aprender.
Somos obrigados a optar: ou temos uma lngua escrita que permite o entendimento mtuo de gachos e nordestinos, de amazonenses e cariocas, de brasileiros, portugueses 
e angolanos, ou temos vrias e diversas lnguas escritas, prximas das lnguas faladas pelas pessoas. Enxerguemos a opo com toda a clareza que ela requer: ou uma 
lngua escrita que vai alm das fronteiras de lugar e tempo, ou muitas lnguas escritas, cada uma refletindo de perto as caractersticas dos falares locais. Grandes 
artistas so os nicos capazes de conciliar esses extremos, brindando-nos com a proeza mgica de serem universais atravs do seu regionalismo e dosando a mistura 
de forma a se fazerem entender mesmo por leitores longnquos. Mas esse  o milagre da arte, impossvel de ser praticado por gente comum em sua vida comum.
Nossa opo, como comunidade nacional, j est feita, mais ou menos conscientemente. A primeira opo foi feita, pelo menos no Brasil e em Portugal, para a ortografia.
A primeira opo  a que mais onera o aprendiz das letras, e a que determina o conservadorismo da lngua escrita.
Por que a lngua escrita  conservadora? Por que guardamos duas maneiras diversas,  e ss, para representar o mesmo [s], por que guardamos o z e o s, por que temos 
tantos casos de representaes diversas na escrita para um nico tipo de som da fala? H dois porqus, um lingstico, outro social.
O porqu lingstico j foi visto. H letras diversas porque as unidades de som que elas representavam em pocas passadas da lngua eram diversas. Essas unidades 
eram, antigamente, honestas letras que representavam monogamicamente seus sons da fala. O  representava [ts] e o z representava [dz] at aproximadamente o sculo 
XIII. Depois, surgiu uma comunidade de falantes que passou a minimizar cada vez mais a fase inicial oclusiva desses sons e levou essa mudana articulatria a tal 
ponto que os membros da gerao seguinte deixaram de perceber que se tratava de consoantes africadas (africada  o nome tcnico de consoantes que comeam como oclusivas 
e terminam como fricativa). Quando os jovens comearam a perceber as ex-africadas como fricativas, seu repertrio de consoantes teve as fricativas e as africadas 
fundidas em uma s consoante. Na escrita, porm, a distino sobrevive at hoje. Do lado dos sons, a situao  explicada por esses caminhos, que j nos so familiares.
O porqu social do conservadorismo da conveno ortogrfica de comunidades complexas como a nossa j deve estar claro: seria simplesmente impossvel ir mudando a 
conveno ortogrfica  medida que as mudanas de pronncia fossem determinando o rodzio de cises e de fuses fonmicas que, como vimos, constituem o mecanismo 
bsico do processo de mudana de forma das palavras. Impossvel adequar satisfatoriamente a escrita  fala, quando tantos milhes de falantes de trs continentes 
devem ser levados em conta. O desgnio de servir a uma comunidade muito ampla , em ltima anlise, o responsvel pelo conservadorismo da lngua escrita. Pelo fato 
de ter que satisfazer a um nmero astronmico de usurios que falam de maneiras bastante diferentes, a lngua escrita de comunidades nacionais e internacionais como 
a nossa no pode ser uma representao direta e fiel da fala.  impossvel ser, ao mesmo tempo, abrangente e foneticamente fiel.
A infidelidade fontica da lngua escrita, inegvel peso para o aprendiz, pode ser vista pelo seu lado positivo. Foneticamente, a lngua escrita no  representao 
fiel da fala, mas graas a essa caracterstica ela pode servir igualmente bem (ou igualmente mal) aos do Minho e aos da Beira, aos do Rio Grande do Sul e aos do 
Rio Grande do Norte, e at aos da frica.
H pessoas que no aceitam o fato de a lngua escrita obedecer a normas padronizadas, aceitas por usurios de formas lingsticas bem diversas da nossa, nos quatro 
cantos do mundo. Essas pessoas desejam uma escrita fiel  fala e defendem propostas de reforma da ortografia.
Os reformistas da ortografia propem que se eliminem da escrita do portugus o , os intervoclico, o g diante de e e i, o h inicial e o c diante de e e i. Por exemplo: 
faa seria escrito fasa, casa seria caza, gente seriajente, homem seria omem, cem seria sem, cinema seria sinema. O nico princpio que guiaria a ortografia seria, 
dizem, o princpio da fidelidade entre a lngua falada e a lngua escrita.
Para que isso se torne possvel,  necessrio criar outra norma: uma norma de lngua falada. Uma dada maneira de pronunciar a lngua teria que ser erigida em norma 
de pronncia, que serviria de base para a nova conveno ortogrfica. Na situao vigente, a escrita  neutra quanto  pronncia. Voc pode ter sotaque nordestino, 
carioca, caipira ou lisboeta, e escrever corretamente. H vrias maneiras, todas igualmente vlidas, aceitveis e respeitveis de falar a lngua. A relao entre 
lngua escrita e lngua falada  fontica em uns poucos casos e arbitrria em outros, como j vimos. Se a proposta de escrita fonmica fosse adotada, alguma forma 
de falar deveria ter o status privilegiado de norma de pronncia, para que pudesse servir de base para a norma da escrita. Isso  claramente um absurdo.
Com a compreenso adquirida neste captulo sobre o mecanismo pelo qual ocorre a mudana de forma das palavras de uma lngua, podemos ter uma certeza: a mudana  
inevitvel, como qualquer fenmeno natural. Tal mudana no torna uma lngua pior nem melhor, mas, apenas, diferente.
Compreendemos, tambm, que as vantagens advindas do sistema de comunicao amplo que  a lngua escrita so, por sua prpria natureza, contraditrias com a proximidade 
entre lngua escrita e lngua oral. A adeso a normas explcitas e um pouco rgidas para a lngua escrita  uma necessidade, se queremos que ela nos permita a comunicao 
entre, comunidades diversas.
Assim, conclumos que, em universos culturais complexos como o nosso, h um afastamento necessrio e inevitvel entre a lngua escrita e as lnguas faladas.
Portanto, parece que o melhor  deixar tudo mais ou menos como est: cada um fala a lngua com o vocabulrio, a sintaxe e a pronncia recebidos em sua comunidade 
nativa. Essa lngua  to boa quanto todas as outras. Na escola, depois de aprender a representar por escrito o seu falar nativo, voc aprende o vocabulrio, a sintaxe 
e a ortografia convencionais do portugus escrito; tal aprendizagem deve ser-lhe dada como uma porta que se abre para o vasto mundo do saber e do trabalho, e no 
como uma pedra tumular a atirar sobre o seu falar de casa.  por isso que dissemos ser melhor deixar as coisas mais ou menos como esto. A parte correspondente ao 
mais  a de que a meta consiste em facultar a todos o uso passivo e ativo da lngua escrita. A parte correspondente ao menos  a de que antes de chegar  lngua 
escrita padro a escola deve aceitar a expresso lingstica do aluno que usa a lngua nativa de sua comunidade.

5 A boa cincia sana a m conscincia

O fenmeno da mudana lingstica precisa ser compreendido com a mesma naturalidade com que compreendemos o fenmeno da evaporao ou da condensao da gua. O professor 
que no o compreende acaba fatalmente acreditando na idia de que a lngua escrita  a lngua certa e que tudo aquilo que no  igual ao certo  errado. Todos aqueles 
que falam errado so inguinorantes. Ao professor, cabe reprov-los. E a situao se eterniza.
Neste texto, tentei combater essa situao com os remdios de que disponho. Um pouco do saber bsico essencial para quem lida com lngua. O reconhecimento explcito 
e respeitoso das particularidades da lngua falada pelas crianas. A obrigao de comparar as particularidades da lngua falada pela comunidade com os pontos correspondentes 
da lngua escrita. A capacidade de ver com clareza as caractersticas de cada etapa do caminho do aprender a ler e a escrever. Como resultado dessa leitura, espero 
que os professores adquiram estima pelo saber do aprendiz, alguma confiana no prprio preparo profissional e o desejo de ensinar a partir de uma posio de aliados 
dos alunos.
Quero encerrar este livro com palavras que de certo modo diminuiro a frao de sua importncia em relao  totalidade dos fatores que formam um leitor competente.
Ao fazer isso no pretendo desmerecer as duas idias fundamentais que foram elaboradas no livro: a idia de que  necessrio compreender os princpios da representao 
ortogrfica oficial no Brasil, e a idia de que tem muitos efeitos na alfabetizao a multiplicidade de variedades de lnguas faladas.
A lngua usada na escrita  compartilhada com uma comunidade muito mais ampla do que aquela formada pelo pequeno crculo de pessoas com quem falamos no dia-a-dia. 
Por essa abrangncia estendida, a lngua da escrita  diferente da nossa lngua falada: tem convenes ortogrficas, repertrio lexical e at mesmo algumas construes 
sintticas que no costumam ser usadas na fala.
Essa segunda lngua - a escrita - precisa ser adquirida pelo mesmo mecanismo natural que nos leva a adquirir a primeira - a falada.
A aquisio de linguagem na primeira infncia se d graas a uma propriedade biolgica especializada do crebro, que nos primeiros anos de vida tem uma propenso 
natural ativada para adquirir lngua. Trata-se de um mecanismo detonado pela exposio  linguagem.  especialmente na primeira infncia que sua atividade  intensa.
Isto  muito evidente quando se observa a rapidez e perfeio com que crianas pequenas, filhas de imigrantes, apreendem a lngua do novo pas e se tornam bilnges, 
igualmente competentes nas duas lnguas. Quando se compara esse sucesso infantil com a insupervel imperfeio com que seus pais aprendem a nova lngua, se tem uma 
prova cientfica da existncia de uma capacidade cognitiva na criana que no adulto j no  to eficaz.
Do mesmo modo, para que se tenha um leitor de plena competncia, sem sotaque,  conveniente que o bilingismo seja ativado na infncia.
 verdade que a questo dos sons e letras e suas diferentes relaes a que nos dedicamos neste livro  metodologicamente importante para esclarecer a tecnologia 
da escrita, mas por outro lado tambm  verdade que quanto mais a criana tiver acesso a livros desde bem pequena, ganhando o gosto de ler e adquirindo familiaridade 
no mundo dos livros, tanto menos importante ser a metodologia do ensino das letras, pois a natureza, com a mesma desordem com que faz acontecer a aprendizagem da 
fala, cuidar sozinha de quase tudo isso.

6 Vocabulrio crtico

Barras inclinadas - conveno de notao utilizada para delimitar a representao de uma transcrio fonmica, ou seja, aquela em que os smbolos grficos se referem 
aos feixes de traos distintivos dos sons da fala. Exemplo: I men 'tisemosl - transcrio fonmica da palavra mentssemos para os mesmos falantes cuja pronncia 
foi transcrita foneticamente no verbete colchetes.
Colchetes - conveno de notao utilizada para delimitar a representao de uma transcrio fontica, ou seja, uma cadeia de sons da fala. Exemplo: [mi'tisimu] 
- transcrio da pronncia da palavra mentssemos para certos falantes de portugus.
Fone - equivalente de som da fala.
Fonema - unidade de som da fala constituda de um feixe de traos que contribuem para distinguir as unidades umas das outras.
Fonottica - combinaes de segmentos fonticos nas slabas permitidas em uma dada lngua.
Representao fonmica - transcrio de uma cadeia lingstica na qual os smbolos fazem referncia apenas aos traos de som que estabelecem diferenas de significao 
entre palavras.
Representao fontica - transcrio de uma cadeia lingstica na qual cada smbolo faz referncia a todos os traos fonticos dos segmentos fnicos.
Som da fala - segmento de som em uma cadeia lingstica, tratado no nvel de representao que retrata apenas as caractersticas do som, sem separar os traos distintivos 
dos que so redundantes, ou seja, previsveis por regra.
Trao fontico distintivo - caracterstica articulatria ou acstica de um som, que faz com que seja diferente de outro som numa dada lngua.
Vozeada - equivalente de sonora. Significa emitido com vibrao das cordas vocais.
